por Edgar Luluca, em 2026-01-11
Ficar vivo quando nada faz sentido
Hoje fala-se mais de depressão do que antes e ainda assim, fala-se pouco. E muitos só falam quando já não conseguem pedir ajuda. Outros falam em arte, em música e em silêncio. E há quem nunca consiga falar.
Há momentos em que a vida parece uma sala sem saída. A mente segue um filme repetido: cansaço, vazio, perda de sentido. Para muitos jovens negros na nossa geração Z (1995–2010), isso acontece num contexto que amplifica a dor: desemprego, violência simbólica e real, desinvestimento no futuro, racismo, expectativas familiares e comparação nas redes que nos torna reféns de padrões impossíveis de seguirmos. Nessas horas, a sensação é de que continuar é um acto solitário. Mas há algo que é preciso repetir até ficar gravado: continuar vivo abre a possibilidade de que coisas boas aconteçam. Por muito escuro que seja o presente, a vida não é uma sentença definitiva, ela é dinâmica.
A depressão não escolhe classe
Há pessoas conhecidas que decidiram falar da sua luta contra a depressão para lembrar que a dor não escolhe rosto.
Jim Carrey, por exemplo, encontrou na arte uma forma de não afundar como pintar, criar e rir de si mesmo porque às vezes o humor é o último colete salva-vidas. Um humor daqueles que dizem: “se eu não rir disso agora, choro depois”. Humor negro é o riso de quem aprendeu a sobreviver com ironia.
Outros não conseguiram ficar como o DJ Avicii. Quando soube da morte do Avicii, eu ainda estava no ensino médio. Ouvia as músicas dele antes de ir à escola, via na televisão, e sem perceber sentia que alguém assim já fazia parte da minha vida. Não o conhecia pessoalmente, mas conhecia a sensação que a música dele me dava. Quando alguém assim se vai, é um choque perceber que talento, sucesso ou aplausos não blindam ninguém da depressão.
A vida antes do pior momento
Estar no fundo do poço raramente parece dramático como nos filmes. Às vezes é só cansaço acumulado, falta de vontade de responder mensagens, dormir demais ou não dormir nada, ser a pessoa que mais ri no grupo de amigos ou de trabalho enquanto desmorona sozinho. Às vezes é pensar “vou aguentar mais um pouco” todos os dias até esse “pouco” acabar.
Há dias em que o fundo do poço parece um lugar normal. É por isso que hoje mais do que nunca soft skills importam: empatia, escuta activa e verdadeira humanidade.
A dor tem um efeito curioso: ela separa qualidade de quantidade. Na fase difícil, descobre-se quem pergunta de verdade “como te sentes hoje?” e quem só aparece quando tudo vai bem. Para a Gen Z, isso é uma lição dura: não é preciso muita gente. É preciso gente certa. Um ombro e uma conversa sem julgamento com alguém que diz “fala comigo” e aguente ouvir.
Tratar bem as pessoas é o único investimento que jamais vai perder o valor.
Nunca é só brincadeira para quem já está frágil
A internet não mede consequências. Os comentários ficam, para muitos jovens angolanos a pressão online soma-se à pressão familiar, econômica e social. Casos de ódio digital mostram como palavras podem empurrar alguém para um lugar escuro demais onde a pessoa não vê saída.
A opressão (racial, econômica, patriarcal) também multiplica a carga emocional: quem vive sob constante desvalorização social terá menos espaço para pedir ajuda sem perder emprego, reputação ou apoio familiar. Por isso a luta pela saúde mental é também luta por justiça social.
Quando a psicologia encontra a política: “muitos estão mortos por dentro”
Alguns pensadores afirmam que em sociedades onde a depressão é normalizada e onde estruturas esmagam a pessoa, muitos vivem mortos psicologicamente, presentes no corpo e ausentes na vida.
Dardano Santos lembra, no debate sobre A Liderança como Ferramenta de Trabalho nos dias de Hoje, que há pessoas biologicamente vivas, mas social e psicologicamente imobilizadas por traumas, medo e resignação. Antes de julgar, pergunta: já estiveste onde ela esteve? Já caminhastes no vale mais escuro da existência? Certas dores não admitem opinião externa. O mundo emocional é vasto e labiríntico, há quartos onde ao entrar, já não se encontra a saída. Reconhecer isto é um diagnóstico que pede políticas e práticas de cuidado mais constantes além do setembro amarelo.
Muitas pessoas que hoje inspiram outros só conseguiram fazê-lo porque não desistiram no dia em que tudo parecia perdido
Se estás triste, não estás sozinho.
Se estás cansado, não estás fraco.
Se estás confuso, saiba que coisas boas só acontecem porque alguém ficou tempo suficiente para as encontrar.
Dicas que pode ajudar são:
- Falar com alguém: pode ser um amigo, familiar, pessoa da igreja, ou um profissional. A experiência mostra que ser ouvido sem julgamento reduz a carga.
- Procurar ajuda profissional: psicólogos e psiquiatras existem para isso.
- Reduzir o isolamento: pequenas ações, como participar de coletivo artístico ou ONGs trazem conexão.
- Criar rotinas de cuidado: sono, alimentação, movimento e limites digitais não curam depressão sozinhos, mas aliviam.
- Se vês alguém em risco, não minimizes: tomar a dor do outro a sério e ajudar a ligar para apoio pode salvar.
Se estás cansado agora, eu não te julgo
Se já pensaste que seria melhor não existir, eu não te condeno. O que te peço, como pessoa que também já pensou que seria melhor não existir, é: fica. Dá a ti mesmo a chance de ver o que pode acontecer depois. Continuar vivo é, buscar ajuda e pedir companhia não te torna fraco, mas sim torna-te humano. A solidão não é nem deve ser a nossa única companhia. Há músicas que te entendem e pessoas que te esperam. Não estás sozinho nesta tristeza. Há quem queira ouvir. Há quem saiba ajudar.
Se precisares, fala com alguém agora. Se não souberes por onde começar, diz-me e eu ajudo a encontrar uma porta para que sigas. A vida merece ser vivida, sobretudo quando tudo parece não ter sentido. E, juntos, podemos criar mais espaços de cuidado para que nenhum jovem africano da nossa geração tenha de enfrentar isso sozinho.