por Resenha Cinema Angola, em 2025-12-18
Roterdão abre as portas ao “Meu Semba”
Roterdão abre as portas ao “Meu Semba”
Há festivais que passam, e há festivais que marcam. O International Film Festival Rotterdam (IFFR) pertence claramente ao segundo grupo. Quem acompanha cinema autoral sabe: Roterdão não é sobre tapete vermelho nem sobre estrelas a posar para flashes. É sobre filmes. Ideias. Risco. Escolhas.
Desde os anos 70, o IFFR construiu uma reputação sólida como um dos festivais mais atentos a novas vozes do cinema mundial. É ali que muitos realizadores apresentam o seu primeiro ou segundo filme, muitas vezes em estreia mundial, e começam trajectórias internacionais que ninguém previa. Não por acaso, é frequentemente apelidado de “os Óscares da Holanda” não pelo glamour, mas pelo peso simbólico que tem no circuito europeu.
É neste contexto que “Meu Semba”, do cineasta angolano Hugo Salva Terra, faz a sua estreia mundial em Fevereiro. E isso diz muito sobre o filme.
“Meu Semba” é uma obra que não tenta agradar a todos. E ainda bem. Trata-se de um musical contido, com poucos números musicais, ambientado numa Luanda contemporânea que dialoga com o mito bíblico de Moisés, mas sem moralismos fáceis. O filme fala, acima de tudo, sobre escolhas aquelas que nos salvam e aquelas que nos empurram para caminhos inesperados.
O protagonista, um jovem albino adoptado por um padre, cresce ao lado de dois irmãos de criação, num espaço onde acolhimento, fé e contradição caminham juntos. O filme não romantiza a realidade, mas também não a transforma em espectáculo de sofrimento. Há humanidade, dúvida e afecto. Há erro. Há consequência.
A escolha de Roterdão para esta estreia não podia ser mais coerente. O IFFR é um festival que valoriza filmes com identidade própria, que confiam na inteligência do espectador e que não explicam tudo. “Meu Semba” encaixa nesse perfil: um filme que pede escuta, tempo e atenção.
Mais do que uma conquista individual, esta estreia representa também a continuidade de um cinema angolano contemporâneo que se afirma sem pedir licença, sem folclore forçado e sem necessidade de validação externa.
Em Fevereiro, Roterdão recebe “Meu Semba”.
E, a partir dali, o filme começa verdadeiramente a sua caminhada pelo mundo.
Porque alguns filmes não nascem para fazer barulho.
Nascem para ficar.